Descobrir que um filho ou filha adolescente está se machucando — seja se cortando, se arranhando ou se mordendo — é um dos momentos mais dolorosos e assustadores para uma mãe. O primeiro impacto traz um misto de culpa, medo e uma dúvida urgente: “Meu filho está com algum transtorno mental grave?”
Se você está passando por isso, o primeiro passo é respirar fundo. Como psiquiatra, atendi recentemente uma jovem cuja principal queixa da mãe era justamente essa: comportamentos autolesivos ocasionais, especificamente o ato de se morder. Na consulta, mapeamos a rotina e identificamos percalços na dinâmica familiar, marcados por algumas ausências, mas nenhum outro sintoma grave.
A conduta? Não houve medicação imediata e nem rótulos com diagnósticos psiquiátricos pesados. Em vez disso, solicitamos um relatório escolar detalhado e traçamos orientações práticas para a mãe ajustar o ambiente e o suporte emocional em casa. Naquele momento, não se tratava de uma doença mental instalada.
O que a ciência diz sobre a autolesão na adolescência?
Essa conduta clínica não é baseada em suposições, mas em evidências científicas robustas. Um estudo brasileiro de grande relevância, publicado no Journal of Pediatrics (Costa et al., 2021), investigou a o perfil da autolesão não suicida em adolescentes de 12 a 17 anos, em uma amostra representativa de Maceió, no Brasil.
Os dados metodológicos dessa pesquisa nos ajudam a compreender a real dimensão do problema:
- Amostra Ampla (n): Foram entrevistados 505 adolescentes em uma pesquisa domiciliar detalhada.
- Critério Científico: O estudo utilizou uma amostra estratificada e aleatória, cruzando dados por gênero e bairros.
- Fatores Avaliados: Foram aplicados questionários validados internacionalmente para medir comportamentos autolesivos (FASM), níveis de impulsividade (BIS-11) e sentimentos de solidão (UCLA-BR).
O resultado desse levantamento traz um dado impressionante: 38,8% dos adolescentes entrevistados relataram ter tido pelo menos um comportamento autolesivo no último ano, mesmo sem preencher critérios para qualquer diagnóstico de transtorno mental.
E qual é o principal motivo?
A pesquisa demonstrou que a imensa maioria dos jovens recorre a isso para interromper sentimentos ou sensações ruins. O sofrimento emocional na adolescência é intenso e, muitas vezes, o jovem não encontra repertório psicológico para expressar em palavras a solidão ou a impulsividade que sente. O machucado físico acaba sendo uma tentativa desadaptada de aliviar uma dor interna crônica.
O estudo também identificou que a autolesão crônica e recorrente (o Transtorno de Autolesão Não Suicida) afetava uma parcela menor, cerca de 6,53% da amostra, estando mais associada a quadros severos de isolamento e vulnerabilidade.
Atenção, mãe: Quebrar o ciclo da dor emocional exige intervenção precoce. O comportamento autolesivo funciona como um termômetro: ele avisa que a pressão interna está alta demais, mesmo que ainda não exista uma doença psiquiátrica estabelecida.
Quando você deve se preocupar e buscar ajuda profissional?
Dizer que quase 39% dos casos podem ocorrer sem um transtorno mental não significa, de forma alguma, que você deve cruzar os braços ou achar que “é apenas uma fase”.
A avaliação especializada é indispensável por dois motivos centrais:
- Risco de Evolução: O comportamento que começa de forma esporádica (como um arranhão ou mordida) pode se intensificar se a causa raiz da dor emocional não for tratada.
- Diagnóstico Diferencial: Sim, esses comportamentos também podem ser a ponta do iceberg de quadros como Depressão, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) ou Transtorno Depressivo Maior (TDM).
Se o seu filho apresenta episódios de autolesão, oscilações bruscas de humor, isolamento social excessivo ou queda no rendimento escolar, mantenha a calma. Existe a possibilidade real de não ser uma doença mental grave, mas o acolhimento médico é o que vai garantir a segurança e o direcionamento correto para a sua família.
Proteja a saúde mental do seu filho
Não tente carregar esse peso sozinha e nem espere o problema se agravar para buscar respostas. Um ambiente de escuta qualificada e sem julgamentos pode mudar o rumo do desenvolvimento do seu adolescente.
Se você precisa de orientação especializada e quer realizar uma avaliação detalhada e humana para o seu filho, entre em contato.
Referência Bibliográfica:
Costa RPO, Peixoto ALRP, Lucas CCA, Falcão DN, Farias JTDS, Viana LFP, Pereira MAA, Sandes MLB, Lopes TB, Mousinho KC, Trindade-Filho EM. Profile of non-suicidal self-injury in adolescents: interface with impulsiveness and loneliness. J Pediatr (Rio J). 2021 Mar-Apr;97(2):184-190. doi: 10.1016/j.jped.2020.01.006.