Por que algumas crianças passam por momentos difíceis e parecem tirar isso de letra, enquanto outras sentem o impacto de forma muito mais profunda?
Por muitos anos, a ciência respondeu a isso com um conceito chamado diátese individual — que nada mais é do que a predisposição biológica que cada um de nós tem para desenvolver certas condições ou doenças sob estresse. Em suma: a ideia de que algumas crianças são simplesmente mais “vulneráveis” e fragile do que outras.
Mas e se a gente olhasse por outro ângulo? E se a mesma característica que torna uma criança mais propensa a sofrer no estresse também fosse a chave para fazê-la florescer de forma extraordinária em um ambiente positivo?
Pode parecer contraditório, mas estudos recentes mostram exatamente isso.
A ciência da sensibilidade: O efeito “orquídea”
Pesquisas revelam que o segredo não está na “fragilidade”, mas sim na sensibilidade ao ambiente.
Crianças que costumamos rotular como tendo um “temperamento difícil” funcionam como orquídeas: se o clima for ruim, elas murcham rapidamente; mas se receberem o cuidado e o afeto certos, elas se tornam as flores mais bonitas e fortes do jardim.
O que os estudos mostram:
Quando expostas a um ambiente com baixa qualidade parental (muito estresse e pouca validação), crianças de temperamento difícil tendem a apresentar mais problemas de comportamento e dificuldades na escola. Por outro lado, em ambientes mais virtuosos, as crianças com temperamento difícil superam as com temperamento considerado normal, demonstrando melhor ajustamento social e acadêmico. Vale destacar que essa resposta ao ambiente não acontece de forma abrupta ou mágica, e o grau de mudança varia consideravelmente a depender da idade da criança.
Trocando em miúdos: ser uma criança intensa e cheia de personalidade pode ser uma tremenda bênção, desde que ela tenha o solo fértil correto para crescer.
Como identificar essa sensibilidade no dia a dia?
Essa característica costuma dar as caras logo cedo através do temperamento infantil — que são aqueles traços biológicos com os quais o bebê já nasce e que ditam como ele reage ao mundo.
Embora mudem com a idade, no primeiro ano de vida a gente nota essa sensibilidade em detalhes simples:
- Na facilidade (ou extrema dificuldade) que o bebê tem para se acalmar;
- Na intensidade do choro diante de estímulos;
- Na previsibilidade de suas rotinas de sono e alimentação.
Não se trata de a criança ser “boa” ou “ruim”, mas sim de o quanto o sistema nervoso dela reage ao que acontece ao redor.
Um abraço apertado e um recado importante para os pais
Se você é pai ou mãe de uma criança considerada “difícil”, nós sabemos o quanto a rotina pode ser exaustiva. Mas há uma mensagem de esperança e urgência clínica nisso tudo: o comportamento desafiador do seu filho não é um defeito de fábrica. Na verdade, pode ser a maior vantagem dele.
Tudo depende de nós. O esforço constante para construir um ambiente seguro, afetuoso e previsível dentro de casa é o que tem o poder de transformar essa intensidade em potência.
Você não está falhando; você só tem em mãos uma sementinha que precisa de um pouquinho mais de atenção para dar os frutos mais lindos do mundo.
Referência Bibliográfica:
Pluess, M. (2015), Individual Differences in Environmental Sensitivity. Child Dev Perspect, 9: 138-143. https://doi.org/10.1111/cdep.12120